Onde o Windows 8 ainda precisa melhorar?

Desde quando a Microsoft lançou o Windows Vista em beta aberto, eu venho testando o Windows antes de ser lançado. O Vista em beta era pesado demais pro meu desktop em 2006, então eu o deixei de lado. O Windows 7 Beta ficou incrível no meu laptop em 2009, e logo virou meu OS padrão. Eis que, em 2012, chega o Windows 8 Consumer Preview. Ele é muito impressionante em tablets, mas ainda precisa de vários retoques para ficar bom em laptops e desktops.

O Windows 8 tem diversos pontos positivos, que deixamos claro aqui e aqui também – este é um contraponto, por isso o foco são os defeitos que encontramos no sistema.

O LaptopMag resume muito bem o grande problema do Windows 8 Consumer Preview: “A interface do Windows 8 leva o minimalismo ao extremo, escondendo opções que exigem muitos gestos para aparecer. Além disso, como você precisa usar três cantos da tela para navegar, às vezes dá trabalho usar o OS.”

No BetaNews, o Windows 8 “me deixou frustrado, tendo que dar o dobro de cliques e mover o mouse o triplo da distância do que era necessário em versões passadas – isso dificilmente aumenta a produtividade”.

O que vamos discutir abaixo sempre leva em consideração que esta é uma versão BETA do Windows, ou seja, não está pronta: tem seus bugs a serem corrigidos, e detalhes a serem melhorados. Mas ei, se ninguém apontar os defeitos, como vamos saber o que precisa melhorar?


Os apps Metro

 

Por que os apps Metro precisam rodar em tela cheia, em vez de serem programas dentro do Desktop? Paul Thurrott explica os dois grandes motivos: isto consome menos bateria (os outros apps ficam suspensos, sem usar CPU) e deixa o sistema mais seguro. Os apps Metro ficam isolados de outros apps e do OS (o chamado “sandboxing”), e para isso funcionar direito, eles precisam rodar fora do Desktop – senão isso “abriria esses apps aos caprichos de 25 anos de código antigo, e a todos os problemas consequentes que vêm disso”, diz Thurrott. Faz sentido.

Mas por que esses apps precisam ser tão simples? Mesmo em versão beta, a funcionalidade é básica demais para um desktop. Um grande exemplo é o app Messaging (o MSN do Windows 8). Onde está a minha lista de amigos online? Não tem, ou eu não achei. O app ficou tão simples que “esqueceram” de acrescentar algo que é básico no desktop – e dá para arranjar diversos exemplos disso. E às vezes, a interface parece impossível de ser domada usando teclado e mouse – como no app People, basicamente uma lista gigante de pessoas. Os apps Music e Videos sofrem dos dois problemas: funcionalidade básica demais, e biblioteca difícil de gerenciar com teclado e mouse.

Estes programas ficam bem em uma tela de 10 polegadas, mas a Microsoft impede que certos netbooks rodem apps Metro: seu computador precisa ter no mínimo resolução 1024×768, enquanto vários netbooks têm resolução 1024×600 – tente rodar um app Metro neles, e você recebe uma mensagem de erro. E em monitores de 20″ ou 30″? Você realmente precisa rodar um app em tela cheia com tanto espaço disponível? E em múltiplos monitores? (Falamos sobre isso mais abaixo.) É muito espaço para pouco app – e as opções do app ainda ficam escondidas, você precisa clicar com o botão direito para acessá-las!

O Leo coloca isso bem: no fim das contas, o Metro é secundário no desktop. No tablet ele é revolucionário, mas com mouse ou trackpad – e com programas ainda não adaptados – o Metro vira só um bibelô. Algo diferente a mostrar para os amigos, mas pouco útil.


A tela Iniciar

O Menu Iniciar recebeu uma melhora enorme no Windows XP e, principalmente no Vista/7. Até o Windows 2000, ele era um menu de pastas e subpastas que crescia sem controle. No XP, o menu Iniciar virou um acesso rápido aos programas mais usados, além de tornar redundantes os ícones Meu Computador, Locais de Rede e outros que antes poluíam a área de trabalho – foi tudo pro menu Iniciar, na barra direita. No Windows Vista e 7, o menu ganhou uma barra de pesquisa, para você digitar o nome do programa – em vez de caçá-lo em pastas e subpastas.

No Windows 8, a tela Iniciar ganhou as live tiles e outra estética, mas tarefas simples estão muito mais difíceis. Onde estão os programas mais usados? Não tem mais. Onde estão os links para Meu Computador, Painel de Controle e outros? Não tem mais. Onde está a caixa de texto pra encontrar meus apps? Você pode começar a digitar direto na tela Iniciar, mas isso está longe de ser óbvio e intuitivo para todos. E onde estão todos os programas?

Fiz um desafio para dois usuários experientes usando o Windows 8: tente encontrar a Calculadora usando apenas o mouse, sem usar o teclado em qualquer momento. Até o Windows 7, é simples: Iniciar > (Todos os) Programas > Acessórios > Calculadora. E no Windows 8? Eles não conseguiram achar só com o mouse. Um deles teve a ideia de abrir o Windows Explorer e ir clicando até chegar em C:WindowsSystem32calc.exe! Mas pela tela Iniciar, os dois não conseguiram. Como fazer? Iniciar > BOTÃO DIREITO > Todos os Aplicativos > cursor para a direita. Por que esconder uma função básica e bastante usada atrás de clique com botão direito, Microsoft? O botão direito ativa muita coisa no Windows 8, mas não deveria – já, já falamos mais disso.

Mas se é possível achar o programa com o teclado, realmente temos um problema? Sim, por dois motivos. Primeiro, usar teclado para acessar funções – principalmente se não forem óbvias – é para poucos. Um exemplo: 90% dos americanos que usam internet não conhecem o atalho Ctrl+F. (Isso em uma amostra de milhares de pessoas!) Segundo, a experiência com uma interfacegráfica precisa funcionar muito bem de forma visual, sem exigir o uso de comandos no teclado – ou mesmo o teclado em si.

Voltando à tela Iniciar, outro detalhe a consertar: novos apps recém-instalados ficam lá no fim da tela Iniciar, sem qualquer destaque. É capaz de você instalar um programa novo e esquecer dele, ou se perguntar onde ele foi parar. No Windows XP/Vista/7, novos programas ficam destacados no menu Iniciar.

Como resolver tudo isso? A tela Iniciar deveria ganhar uma seção automática “Mais Utilizados”, para não voltarmos ao tempo de caçar programas no menu. Ele também deveria dar destaque a apps recém-instalados: ou os traz para a frente, ou leva você até a tile do app novo quando você voltar à tela Iniciar. O menu também deveria ter um link direto para Todos os Apps, e de forma integrada: ao lado do texto “Iniciar”, coloque o texto “Todos os Apps” e os mostre abaixo em forma de lista, sem abrir outra tela como é feito hoje. Uma caixa de texto para pesquisar apps também seria uma boa – é mais intuitivo e óbvio que o charm Pesquisar.

Eu entendo que a Microsoft tenha retirado o link para Meu Computador e afins – para eles, já basta o link para o Windows Explorer que leva você às Bibliotecas e a seus arquivos. Não há porque levar um usuário inexperiente ao diretório raiz, e se você quiser acessar um dispositivo conectado – como um pendrive – o Windows abre o Explorer automaticamente. O jeito é fixar Meu Computador e as pastas manualmente na tela Iniciar.


Excesso de cliques com botão direito

No tablet, o Windows 8 concilia espaço em tela e funcionalidade com a App Bar: deslize o dedo para cima a partir da borda inferior, e você revela as opções do app. No desktop, você precisa clicar com o botão direito. Sempre. E mesmo para acessar funções simples. Já tive que clicar mil vezes com o botão direito em poucas horas de uso. Isso é péssimo, principalmente em laptops.

Clicar com o botão direito jamais deveria esconder funções básicas. Este é um gesto avançado e pouco intuitivo, e a Microsoft sabe disso: “limite interações avançadas do mouse (como clique com o botão direito) a tarefas avançadas e voltadas para usuários avançados”, recomenda a Microsoft a quem desenvolve para Windows.

Em laptops, clicar com o botão direito é ainda mais frustrante por quebrar seu fluxo: afinal, pressionar o botão exige que você saia da área de toque. No Windows 7, raramente uso o botão direito; no Windows 8, ele se tornou imprescindível. E o pior: as opções do app não aparecem onde você clica. É preciso ir até a parte inferior (ou superior) da tela para acessá-las. Isso torna a experiência ainda mais frustrante e menos produtiva.

Como este problema ocorre em grande parte nos apps Metro, a solução parece simples: deixe a App Bar sempre exposta. Ou esconda a barra, mas faça as opções do app surgirem automaticamente quando eu levar o cursor pra borda inferior (ou superior). Neste caso, quando eu estiver no Internet Explorer e quiser digitar um endereço, apenas levo o cursor pra borda inferior, clico na barra de endereços e pronto – sem clique com botão direito. E tem a vantagem do cursor sempre estar próximo da opção que eu quiser. Claro, a Microsoft precisa ajustar a função para não ser irritante – mas pior que os eternos cliques com o botão direito, não fica.


Cantos da interface e multitarefa

Uma novidade do Windows 8 são os “hot corners”: levar o cursor para os quatro cantos da tela sempre faz alguma coisa – troca entre apps, mostra os Charms, leva você à tela Iniciar etc. O vídeo acima demonstra como elas funcionam (a partir do ponto 4:15).

Primeiro, vejamos a borda esquerda. O canto inferior serve de atalho para o menu Iniciar. Deslize o mouse para cima (sem clicar), e aparece uma lista dos apps abertos. O canto superior mostra a miniatura do app onde você estava; clique, e você volta a ele. Clique várias vezes e você alterna entre os apps abertos; deslize para baixo (sem clicar), e você vê aquela mesma lista de apps abertos.

Aqui, os hot corners devem ser mais intuitivos: algo precisa indicar que estes cantos fazem alguma coisa, chamando a atenção – de forma mais permanente – para a borda esquerda. Por exemplo, com as linhas translúcidas da imagem ao lado (que indicam os apps abertos): deixe-as sempre lá, para chamar a atenção do usuário e para ele aprender como usa.

Os trackpads também precisam melhorar para se adequar ao Windows 8. Pense em ativar a barra de multitarefa deslizando dois dedos para a direita, por exemplo. A Synaptics, que provavelmente fabricou o trackpad do seu notebook, já disse e já mostrou que está trabalhando nisso. Só espero que, com isso, eu não precise comprar um laptop novo.

Mesmo assim, até que os hot corners funcionam bem. Meu principal problema é com a lista de multitarefa. Ela só tem a miniatura dos apps, o que pode confundir – os apps de Música e Vídeo são bem parecidos, por exemplo. Resolver isso é fácil: faça o nome do app surgir quando eu passar o cursor em cima das miniaturas. E fechar programas com o mouse deveria ser mais fácil. Você pode arrastar a miniatura até a borda inferior da tela, o que é difícil com um trackpad; ou clicar com botão direito > Fechar, o que não é intuitivo. (Olha o botão direito de novo!) Faça como no Windows 7: coloque um pequeno X em cima das miniaturas. (Com o teclado, é só pressionar Alt-F4.)

E acessar a lista de miniaturas é trabalhoso. Você precisa chegar até o canto da tela, e depois deslizar para baixo (ou para cima) – às vezes você “erra” e a barra não aparece. A barra deveria ser mais fácil de acessar. Mas como? Levando o cursor para qualquer ponto da borda esquerda? Não, nós iríamos ativar a barra por acidente, isso seria irritante. Quem sabe exibindo-a sempre que eu tocar os cantos (não a borda inteira), sem exigir o segundo gesto de deslizar o cursor para baixo (ou para cima). No teclado, você alterna com Alt-Tab entre os apps Metro e Desktop, o que eu gostei muito. Mas de novo: uma interface gráfica não deveria exigir comandos de teclado para funcionar bem.


Charms e funções escondidas

Agora vamos à borda direita. Os cantos superior e inferior ativam a barra de Charms. No Desktop, o canto inferior também ativa o Aero Peek, permitindo ver a área de trabalho sem minimizar as janelas. De novo: quero gestos com trackpad para acessar os Charms.

O grande problema dos Charms é esconder as configurações do app. Você clica com o botão direito e elas não estão lá embaixo. Como acessá-las? Toque em um canto da borda direita, clique em Configurações e depois escolha a opção adequada. É legal que a Microsoft centralize as opções dos apps – qualquer que ele seja – em um só lugar, mas de novo: não é intuitivo. Do jeito que está, você não espera mexer nas configurações do app, você espera acessar as configurações do Windows. Quem sabe mudar o nome do ícone para “Preferências do app”, ou algo do gênero, ajude. E no Desktop, o botão deveria levar você direto ao Painel de Controle com um só clique, em vez de dois.

O botão Configurações também esconde algo muito importante: como desligar o PC. São quatro gestos até desligar: canto direito > Configurações > botão Power > Desligar. Nada disso faz sentido. Por que complicar uma função tão básica? Por que colocar isto no menu Configurações? Isto pode fazer bastante sentido para tablets – onde os usuários vão usar os botões físicos para desligar – mas não no desktop. A solução: coloque o botão Power ao lado do meu nome na tela Iniciar. Assim, faço o mesmo que no Windows 7: Iniciar > Desligar.

Para desligar, você também pode travar o PC, deslizar a tela de trava e clicar em Power > Desligar. Aí vemos outro problema: pra que deslizar essa tela de trava no desktop? Pior, não há qualquer indicação visual do que você deve fazer, nenhum “Deslize para iniciar” ou seta para cima que ajude o usuário. De novo, no tablet isso faz muito sentido – no desktop, é perda de tempo. Faça como no Windows 7 e mostre direto o campo de senha para eu destravar meu PC.


Múltiplos monitores

Como o vídeo acima da ExtremeTech mostra, o Windows 8 ainda tem suas falhas com mais de um monitor. Os Charms aparecem em apenas um dos monitores, assim como a miniatura que leva à tela Iniciar. A tela Iniciar ocupa apenas um dos monitores, enquanto o outro exibe o Desktop (ou o app que você estiver usando). Você ainda pode usar o Snap para colocar dois apps na mesma tela: por exemplo, você pode ter a área de trabalho tradicional ocupando 2/3 da tela, e um app Metro ocupando o outro 1/3 – assim você aproveita melhor o espaço dos dois monitores. Só espero que os apps Metro funcionem bem mesmo quando ocupem só 1/3 da tela: deixá-los “minimizados” mas sem poder usá-los não adianta muito.


Conclusão

Nós gostamos do Windows 8, e ele é incrível em tablets. Ele era muito bom no Developer Preview e ficou ainda melhor no Consumer Preview. Mas no desktop? Por aqui, ele ainda não será o OS principal: a Microsoft tem muito trabalho pela frente se quiser realmente fornecer uma experiência “no-compromise”, sem concessões, como nos foi prometido desde setembro. Felizmente, a Microsoft é aberta a feedback, então quem sabe em alguns meses teremos um Windows 8 matador para desktops.

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