Sobre móveis e lembranças

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Nasci, cresci e fui criada na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma rua e na mesma casa os meus últimos 21 anos, ou seja, minha vida toda, até agora…

Cresci construindo “fazendinhas” de terra na frente de casa com meus primos, nós morávamos todos na mesma rua. Brinquei de carrinho e de boneca com eles, de corrida, de esconde-esconde, de futebol e taco. Por incrível que pareça, ninguém é criança pra sempre e, à medida que nós crescíamos trocamos as brincadeiras pelo bate papo no portão.

A padaria é ao lado, o mercado é ao lado, o açougue é ao lado, a farmácia é ao lado, os amigos estão logo ali do outro lado da rua. E logo agora, há uma semana de dizer tchau pra tudo isso é que eu me toquei o quando essas coisas pequeninas eram tão importantes.

Vou sentir falta daquela árvore enorme, perto do ponto de ônibus, que ficava linda na primavera e sujava a rua toda com suas flores. Vou sentir saudade de sair de manhã de casa para ir trabalhar e encontrar com o senhorzinho que sempre me falava um oi bem empolgado, e eu nem sei qual é o nome dele. Vou sentir falta de chegar na padaria e pedir pão e a atendente sempre pegar os mais assados por que sabe que a gente gosta assim. Vou sentir saudades de pegar o ônibus todo sábado de manhã e andar sossegadamente até a escola de desenho com aquele sol tímido da manhã na minha cara. Vou sentir falta de sair de pijama pelo bairro, “porque eu só vou aqui pertinho mesmo, nem preciso trocar de roupa”. Vou sentir saudades de encontrar algum conhecido voltando pra casa, de falar oi pra todo mundo na rua. De ver meus antigos amigos de escola na rua e pensar “nossa como fulano mudou”.  Do lanche do Zéquinha. De me gabar que eu moro há 20 minutos de praticamente qualquer lugar da cidade e que eu consigo ver a cidade toda daqui. Vou sentir falta da minha vida dos últimos 21 anos. E pensando em todo esse tempo, é muita coisa mesmo pra sentir falta.

E só de pensar nessa casa vazia quase me aperta o coração, é como se cada cômodo dessa casa tivesse um pouco de história minha, e deixar qualquer história para trás é doloroso, mesmo se a próxima página seja melhor do que a anterior.  Mesmo assim, todo minha empolgação com a mudança para nova casa vai sendo severamente dividida com a saudade de vou sentir deste lugar que estou hoje. Uma batalha de gigantes.

Sair pela porta da frente e encarar um “novo mundo” não será fácil e talvez tudo isso seja só um drama da minha cabeça moldada a padrões “novela mexicana”.

E é isso, a vida é encaixotar móveis e lembranças. Mas, no final, a gente sobrevive.

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