SP invisível

O SP invisível é um projeto que visa abrir os olhos e a mente através das histórias dos invisíveis para motivar as pessoas a terem um olhar mais humano.

Descobri essa página muito por acaso, li algumas histórias e pensei, caraca, como tenho uma visão errada sobre o mundo nas ruas. Não só eu, claro, mas TODO mundo que não tem contato com ninguém que vive neste meio.

Basicamente, as histórias contadas são de pessoas que vivem ou viveram na rua em algum momento da vida e quando a gente fala em moradores de rua a primeira coisa que vem na cabeça é “drogas e bebidas, sofrimento, infelicidade, criminalidade”, muitas dessas coisas até pode ser verdade, mas não é só isso.

Porém, depois de ler algumas histórias, não só dos moradores mas, de artistas de rua também, mudei o modo como vejo essas pessoas. Cada história trás uma visão bem mais humanizada sobre a vida na rua. Já parou pra pensar que ninguém escolhe morar na rua? E se o cara vive nessa condição deve ter um bom motivo. Na verdade, eu já trazia esses pensamentos comigo há muito tempo, conhecer os casos só afirmou ainda mais isso.

Aqui tem poetas, contadores de história, artista, gente que ajuda mais as pessoas do que as pessoas que tem mais condições para isso, tem filósofos, gente do bem, tem gente triste e gente feliz.

1“Meu primeiro emprego foi com uns 7 anos, trabalhei cortando cana lá no Mato Grosso até os 12. Depois, fui lá pra Alagoas tentar a vida, não deu muito certo e aí eu caí em São Paulo.
Moro há mais de 20 anos aqui e tô na rua faz 11 meses. Meu nome é Paulo, tenho 44 anos, duas filhas e um neto. Eu não volto pro Mato Grosso por causa deles, mas lá eu deixei pai, mãe e 8 irmãos.
Minhas filhas, a Márcia e a Paula, moram com a minha ex-mulher, por isso não fico com elas. Eu morava numa pensão, mas ela fechou, antes disso fui porteiro de um prédio por um bom tempo, 16 anos e 4 meses.
Hoje, o que eu tenho na rua são alguns amigos e minha liberdade. Quem não mora aqui não gosta da gente porque a gente é livre. Sou livre até dos vícios, só bebo pra passar o frio, a bebida existe pra quem sabe beber.
Aqui eu fico olhando uns carros de vez em quando, o mais difícil mesmo é ladrão. Agora sabe o que eu gostaria de ganhar de Natal? Um refrigerante.”

2 “A primeira vez é sempre um baseadinho né, comecei a usar droga com 12 anos. Aí foi passando o tempo, conheci outras drogas até que comecei a fumar crack, essa rocha acaba com qualquer um.
Eu sou baiano, meu nome é Enildo, vim pra cá porque teve um dia que eu entrei numa brisa pesada e decidi sair de casa sem rumo, então andei 4, 5 meses até chegar em São Paulo. Saí em Agosto de 2007 e cheguei no comecinho de 2008.
Foram duas viagens: uma na minha cabeça e outra física, andando. A brisa era que quanto mais eu andava, mais queria andar, então eu dormia nos postos umas 10 da noite e acordava 6 da manhã pra andar. Era um negócio muito louco, conheci um monte de cidade e várias histórias, quem é feliz, é feliz em qualquer lugar.
Aí quando cheguei em São Paulo, fui morar na calçada, lá no centro. Falo na calçada porque quem mora na rua, o carro atropela. Só que é muito difícil, tem muito preconceito e essa pedra impede qualquer crescimento, qualquer evolução.
O pessoal tem que entender que quem tá na rua tem um motivo, tem uma história. A maioria é dependente, é doente, não tá na rua porque quer, a gente precisa é de ajuda, não do seu dedo apontado. Tô falando ‘a gente’ porque falo em nome de todos irmãos da rua.
Nunca pensei em passar meus 40 anos jogado na rua, então pensa bem antes de julgar porque pode ser você um dia.”

3

“Eu vim de uma família de artistas lá do Chile, minha mãe era bailarina e meu pai baterista e meus avós tinham um restaurante. Eu aprendi a fazer arte lá no restaurante deles, cresci ouvindo que pra ganhar um refri, eu precisava cantar ou dançar alguma música.
Então, com 4 anos eu fui estudar, mas não foi futebol como todos os meninos, estudei balé clássico e com 7 anos pisei no palco pela primeira vez. Estudei a vida toda no Liceu, quando fiz 18 anos tive duas opções: ir pra academia militar ou artística. Então fui estudar artes plásticas.
Eu, Miguelito, poderia estar em qualquer lugar, se eu tô aqui é porque amo o que faço. Acho muito importante a intervenção dos artistas na rua porque, às vezes, é o único contato que alguns tem com uma banda, um palhaço ou um quadro. Se não existisse isso, a arte ficaria na mão da elite. O artista sempre se apresentou na rua, desde a idade média. Por isso o artista é da rua, ele não está na rua, é a ideia dos saltimbancos.
Eu já estudei e transitei por quase todas áreas da arte, sei dançar, tocar bateria, fiz cursos de artes plásticas, artes cênicas, mas um tempo atrás vim pedindo pra Deus alguns recursos e ele me deu esse personagem. Acredito que todos tem uma vocação que precisa ser usada para o outro e uma missão pra ser cumprida aqui. A minha é quebrar um ciclo de tristeza e violência da cidade através do meu personagem.”

4

“Meu maior sonho sempre foi ser ator. Eu fazia aula de canto e de teatro, mas tive que parar pra ajudar em casa, só que até hoje eu tenho vontade de voltar.
Gosto muito desse negócio do público, isso que me encanta na arte do teatro. Sempre que dá eu assisto uma peça ou outra nas escolas, nas igrejas, nunca fui num teatro mesmo porque a condição não ajuda, mas um dia eu ainda vou.
Se eu tivesse dinheiro, faria faculdade de artes cênicas. Sempre converso com uns atores, pergunto onde tem curso gratuito, mas eles dizem que é difícil. Olha, pode até ser difícil pra eles, mas pra mim não, quando eu quero uma coisa, vou até o fim.
Meu nome é Felipe, tenho 27 anos e tô na calçada há 8 anos. Saí de casa porque eu comecei a usar droga e não queria fazer minha mãe passar vergonha. Imagine, só eu que fumava lá, não ia ficar em casa. Ela fica chateada, mas sabe onde eu tô, às vezes a gente até conversa.
Gosto muito de conversar com o pessoal que passa, mas também rola muito preconceito com o morador de rua. Às vezes, a gente entra num estabelecimento pra comprar um lanche, tem o dinheiro e eles expulsam, acham que a gente é cachorro. Então eu prefiro ficar a tarde na lan house com o pouco que eu ganho, vejo as notícias, uns vídeos no YouTube e umas peças de teatro.”

5

“Meu nome é Pedro Henrique, tenho 33 anos, a idade de Cristo, e vim pra rua porque cresci sem pai e sem mãe, viajei o Brasil todo e quando cheguei em São Paulo não tive onde ficar.
O que mais marcou foi quando eu morei no Rio, lá eu aprendi a filmar, filmei muito campeonato de skate e de surf. Desde então, é só ‘sorria, você está sendo filmado’ e ‘corta pra mim, Percival’. Hoje a câmera é minha paixão.
Moro na rua há quase 20 anos, vim bem novo do Rio pra cá. Essa câmera me acompanha aqui, ganhei ela lá no Leblon, um cara ia jogar fora e eu peguei pra mim.
A câmera não funciona, mas ela me ajuda a ser feliz, eu fico o dia todo aqui brincando e esqueço todos os meus problemas, inclusive minha perna que tá quebrada porque caí da árvore. Eu não nasci pra ser triste, faço de tudo pra ser feliz, mesmo morando na rua.”

6

“Meu nome é Jean, tenho 33 anos e tô há 2 vivendo como catador. Porém, eu não vivo pra mim, vivo pra Larissa.
Lá na Júlio Prestes, mora eu, a Larissa, minha filhinha de 6 anos, e a minha mulher; a gente mora na pensão da Kelly.
Minha filha tem síndrome de Down, mas eu não considero isso uma doença, ela é um presente de Deus na minha vida ,ela muito inteligente e muito amorosa, estuda e tudo. E minha mulher?! Tem nem o que falar, ela é guerreira e tá sempre comigo, lado a lado. Quando eu decidi vir de Ribeirão Preto pra São Paulo, ela topou na hora, mesmo não dando nada certo e eu tendo que pegar latinha e papelão.
Cada latinha que eu pego é pra minha filha. Faço tudo por ela, hoje toda minha vida gira em torno dela, tento ao máximo ser um bom pai.
Antes eu pegava mais, mas um cara bêbado bateu com o carro na minha carroça, acabou com ela e nem parou pra ajudar, saiu até rindo. Graças a Deus, já mandei arrumar e busco amanhã.
A pior coisa na rua é a discriminação com o catador. Pra quem acha que todos são bandidos, eu digo: nem todos os dedos da mão são iguais, procure saber a história e os porquês antes de julgar. Deus abençoe.”

7

“Sabe o que é ter que trabalhar pra ajudar a sua mãe a pagar o aluguel e ainda a sustentar mais 8 irmãos, com apenas 17 anos? Então, a partir do dia em que meu pai faleceu, essa foi minha vida por um tempo. Era dia e noite trabalhando pra ajudar a família, até que eu consegui emprego pros meus irmãos.
Meu nome é José, tenho 59 anos. Ainda tenho 5 irmãos e uma filha que já é casada, minha mãe faleceu. Tem umas coisas que eu aprendi de berço: honestidade, sempre ajudar o próximo quando puder e fazer o bem. Fazer o bem faz bem. Se um dia eu tiver que tirar um real seu, prefiro te dar mais 10.
Hoje, tenho minha aposentadoria e trabalho de segurança, vivo pra ajudar a minha filha e um irmão que tá doente.
Eu fumava, bebia, mas tive uns problemas de saúde e vi que nada disso vale a pena. O que faz a gente feliz é ajudar o outro, viver para o próximo. Tudo o que eu puder fazer para você, eu vou tentar, mas nunca vou dar o passo maior que a perna. A gente tem que dar o quanto pode, mesmo sendo pouco, o que importa é que é sincero e de coração.”

8

Meu nome é José Morais, ‘Morais’ com ‘i’, tenho 63 anos e aqui é meu apartamento, tô há cinco anos na rua. Conhece aquela história do ‘Diga-me com quem tu andas que te direi quem tu és’? Então, minha mulher e minha cunhada viviam bebendo, simplesmente não quis mais viver com elas e vim pra rua. Hoje tô de boa, converso com meus filhos, eles entendem minha decisão e tá tudo ok.
Não bebo, não fumo, na rua é um sossego, não mexo com a rapaziada, respeito pra ser respeitado. Todos os dias faço minha oração, corro uns 45 minutos, vou olhar uns carros pra ganhar um trocado, almoço na faixa em qualquer lugar da região porque o pessoal dos restaurantes me respeita, volto pro trampo, faço uma oração e vou dormir.
Não vou falar que é fácil, mas na rua a gente tem que ter jogo de cintura e boa cabeça pra não cair nas tentações, é rapidinho pra se perder em droga, bebida e ir pro caminho errado. Tem que seguir no caminho da Palavra, a Bíblia que me ensina a conversar, respeitar e amar os outros.
Já trabalhei de tudo, na roça, em mercado, na Lapa, no Estadão. Sou de Minas, vim novinho pra São Paulo procurar emprego. Quando ganhava dinheiro gostava de passear, achava uma grana bem gasta, mas aí você cresce, tem filhos, netos e vê que, melhor do que usar pra passear, é usar o dinheiro pra cuidar das pessoas.”

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2 comentários sobre “SP invisível

  1. Olha, esse post foi com certeza o melhor que li essa semana, se não o melhor do mês. A gente realmente julga muito sem saber. Li tudo isso com lágrimas nos olhos. Sou do tipo de pessoa que não nega comida/água quando me pedem, mas saber um pouco mais da vida dessas pessoas, deu vontade de fazer algo diferente. Juro, que se eu tivesse grana o suficiente, iria fazer um super jantar de Natal na minha casa e chamar todos os moradores de rua que eu pudesse, mas pena que não é simples assim. Mas quem sabe, não consigo realizar essa vontade um dia? Desejo que todas essas pessoas, mesmo nas ruas, consigam passar um bom natal. E ler algo assim, com certeza me faz valorizar muito a minha vida e o pouco que tenho, que perto de alguns desses, é muito.

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  2. Eu conheço a página, inclusive curto e compartilho várias publicações. Me emociono com várias histórias e fico pensando.. Estamos tão acostumados a reclamar, nunca olhamos pro lado..
    É um tapa na cara

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