O livro que nunca será um livro

estação

Já fazia uma semana que Tomás havia sumido e, nesses últimos dias desejei que São Paulo não tivesse tantos parques, praças, lugares undergrounds e todos esses cantos que ele adorava se esconder. No começo eu sabia que ele só queria um tempo para por a cabeça no lugar, ele é desses que entra e sai de órbita em questão de segundos. Sua natureza precisava desse tempo.

Já era cinco da tarde quando Samanta e eu sentamos no banco de uma estação de metrô, o horário de pico estava chegando e decidimos esperar passar toda a muvuca, seria de mais ter que aguentar tudo isso depois de andar pela cidade toda. Decidimos rever nossa lista de lugares possíveis que Tomás poderia estar.

Fiquei pensando, se eu fosse fugir para algum canto, seria muito fácil me achar, provavelmente eu estaria na minha antiga cidade ou algo assim, nada muito longe ou complicado ou cheia de metáforas e todas essas coisas que eu não entendo muito bem.

Todos os principais lugares nós já checamos, os cantos mais afastados também, ele sempre morou em São Paulo e não tinha parentes muito distante com quem conversava, então seria pouco provável ele ir para outra cidade. Eu já estava cansada de tudo aquilo e com certeza Samanta também estava, não tinha nem um outro lugar para ir, pelo menos não que a gente saiba.

Ficamos quase três horas lá sentadas, olhando para as pessoas que passavam, para os trens que iam e voltavam e para os trilhos. Lembrei-me de um dia que estava com Tomás e Samanta numa linha férrea abandonada, ele se equilibrava nos trilhos e contava para gente o quanto ele gostava da metáfora que era tudo aquilo. Era uma das frases favoritas da mãe dele:

– Vê se anda na linha Tomás, não quero ter que brigar com você por coisa boba – dizia dona Carmem toda vez que ele voltava muito tarde para casa ou algo do tipo.

Mas, para ele andar na linha era algo a mais, era como se aventurar, nunca se sabe quando um trem vai passar ou para onde aqueles trilhos iam dar.

– Tomás, elas vão dar exatamente em alguma cidade ou em algum bairro, em alguma estação e de lá as pessoas vão para suas casas e tal – dizia eu, toda vez que ele vinha com essa.

– Alice, Alice, você não entenderia nem se eu esfregasse na sua cara – dizia ele com aquele sorrisinho debochado – Você não pode pensar assim, às vezes você tem que pensar que os caminhos nem sempre te levam a lugares tão seguros. E se esses trilhos levarem a gente pra um lugar abandonado ou algo do tipo?

– Acho que a gente devia ir ver, só pra deixar a Alice com medinho – gritou Sam já bem a frente de nós.

Os dois começaram a correr e eu, claro tive que correr atrás, era isso ou ficar naquele lugar sozinha, no meio do nada e no escuro. Acabou que chegamos numa estação abandonada bem como ele queria. Vagamos um pouco por lá, chamamos um taxi e fomos embora. Nenhum dos dois disse uma palavra, mas, naquele instante, tanto eu quanto eles sabíamos que, finalmente, eu comecei a entender um pouquinho todas aquelas metáforas que ele tanto falava.

Já eram oito horas quando decidimos ir embora, estávamos cansadas e amanhã tínhamos que ir para faculdade, as provas finais estavam chegando que não dava mais para faltar.

 

Texto de um parte de um livro que eu pensei em escrever mas nunca terminei. ps.: o Tomás morre.

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